A liberdade é algo extremamente precioso ao ser humano. Alguns preferem a morte do que viver enclausurados, seja dentro de quatro paredes ou dentro de si mesmo. No entanto, o que as pessoas não percebem é que desde cedo sua liberdade é tolhida, é "desenhada"... talvez - e é provável que este seja o termo mais apropriado -, a liberdade é "programada".
Desde criança, o ser humano é iniciado numa rede de situações que vão delimitando seu espaço de escolhas, e essa rede vai se ramificando à medida em que ele cresce e cada vez mais vai sendo capturado por aquilo que Foucault denominou de "instituições de sequestro".
Ao nascer, a criança já se torna alvo de expectativas. Independente do sexo, já comentam: "Esse menino(a) vai ser um(a) doutor(a)!" E vem um rol de profissões para aquele ser pequenino que nem conseguiu assimilar o mundo direito. E é nesse momento que começa a formação do "papel" que aquele novo indivíduo vai exercer no mundo, e as instituições de sequestro começam a atuar.
As instituições de sequestro numa definição bem genérica e pobre - pois é um assuto bastante extenso e complexo para definirmos de forma plena em poucas linhas - são aquelas destinadas à formação e potencialização de corpos dóceis. A primeira instituição de sequestro que o indíviduo é empurrado e a que vamos tratar neste texto, é a escola. Não estou querendo desmerecê-la, muito menos negar a sua importância na sociedade que vivemos; mas qual o papel da escola? "A escola tem o papel de educar" responderia alguém num primeiro momento. Mas quantas vezes já ouvimos nossos professores dizerem que : "Educação se dá em casa, é papel de pai e mãe", ou até mesmo o já batido e determinista: "Educação vem de berço". Então, se educar a criança é papel da família, qual seria o papel da escola?
A escola tem como função modelar o indíviduo, potencializá-lo. Ela deposita nele, gradativamente, conhecimentos que vão torná-lo apto a exercer o seu "papel social" no mundo. Além desses conhecimentos, existe também, impregnado nessa instituição, regras de hierarquia, divisão e controle. Tudo está meticulosamente programado: horário das aulas, horário do "recreio", provas... Não é de se espantar a semelhança no que diz respeito a estrutura da "produção escolar" com a produção de uma fábrica. Afinal, o ser humano nunca nasceu como"sujeito", mas sim "objeto". Mas o grande mérito está no "conhecimento" que é depositado nos indivíduos... esse é o grande detalhe.
Mais da metade do que aprendi na escola só serviu, em termos de prática, para passar pelos estágios criados pela própria escola. Tanto é que devido a falta de uso deles, já esqueci da maioria. Não lembro mais nada daquelas funções matemáticas, cálculos geométricos, termodinâmica, tabela periódica, Mendel e suas ervilhas... Enfim, hoje já não servem de nada para mim, mas me empurraram isso sem pedir minha autorização. O detalhe do conhecimento escolar é que ele é extremamente técnico, serve apenas para municiar o indivíduo de ferramentas que o possibilitem escolher uma utilidade social para, não sejamos ingênuos, ganhar dinheiro.
Por isso que matérias como filosofia, sociologia, artes, música (o que não é aprender a tocar um instrumento, é saber a história, estilos), são tão desconsideradas nas escolas e quando consideradas, isso é feito de maneira tão desvirtuada que cria uma antipatia ou menosprezo dessas matérias e ninguém as leva a sério.
Dessa forma, fica claro que em regra, o ser humano não é sujeito de conhecimento, mas na verdade objeto, pois está preso a instituições (escola, trabalho, igreja...) que trabalham sobre ele. E é aí que está a questão da liberdade. Somos realmente livres? Será que pelo fato de termos escolhas, isso significa que temos liberdade?
Não tenho capacidade de responder a esta pergunta e tão pouco estou preocupado com isso. Mas acredito que o segredo é deixar de ser objeto e se tornar sujeito. É pensar, questionar, fazer diferente ou pelo menos deixar de ser ingênuo. Claro que para nossa sobrevivência e prazer é necessário trabalhar, estudar, se submeter a ser "objeto", afinal, isso faz parte de uma estrutura que não está mais nos controles humanos; mas ficar preso apenas a essa perspectiva, preocupado numa corrida ao tesouro que é idealizado como uma bela carreira profissional (e bela significa ganhar muito dinheiro) e uma boa familía - que tanto para homens e mulheres é ter segurança financeira e um companheiro que tenha "mil e uma utilidades" -, é total perda de tempo. Quando desprendido desses "sonhos enlatados", o ser humano se torna um espiríto livre, mesmo que apenas em seus sonhos, dando um sentido maior àquilo que ele tem de mais valioso: a oportunidade de viver.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
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Meu caro Sorel, sei que esse texto é resultado de uma angústia, de uma consciência viva acerca de sua fé na afirmação da autonomia como promotora de uma existência não apenas livre, mas libertária.
ResponderExcluirNosso espírito é livre, querido; os nossos sonhos são o palco de um teatro que não cabe marionetes, mas o 'ser em si', que a si mesmo se basta.
Um grande beijo em seu coração.